Fumaça nos seus olhos – Cecily Brown, Flávio de Carvalho e Tunga
24 Março 2018 — 12 Maio 2018
Fumaça nos seus olhos
Cecily Brown Flávio de Carvalho e Tunga
24 Março 2018 — 12 Maio 2018

auroras tem o prazer de apresentar  Fumaça nos seus olhos, com curadoria de Paulo Miyada, incluindo obras de Cecily Brown, Flávio de Carvalho e Tunga, três importantes artistas, cujas produções investem no desejo como força que aproxima signos, subjetividades e formas. A mostra reúne onze obras, entre pinturas, desenhos e instalação, que relacionam a tactilidade da matéria e sua transfiguração em corpos. Embora sejam de formações completamente distintas, cada um desses artistas soube desenvolver, em seu tempo, a liberdade dos desejos frente à crescente repressão da libido. As figuras de corpo tendem a ser vislumbradas entre linhas de tensão, massas de tinta e pinceladas, dificilmente encerradas em suas individualidades, mas em um jogo de interpenetrações, abolindo limites bem definidos.

Enquanto os objetos de desejo dos desenhos de Flávio de Carvalho (1899 – 1973) são frequentemente o corpo da mulher, Cecily Brown (1969) explora o corpo a partir de uma perspectiva feminina, mas que não deixa de constituir também uma imagem desintegrada, como grande parte da tradição moderna. A linha dos desenhos de Tunga (1952 – 2016) passeiam organicamente sobre o papel, criando uma simbologia erótica quase-mística.

Com um dinamismo que desafia a natureza estática da pintura, a obra de Cecily Brown cria um jogo fluido entre o revelar e o ocultar, retendo o olhar em suas composições vibrantes, frequentemente dialogando com figuras da história da arte. A obra de Francis Bacon e Edgar Degas são centrais para sua produção, assim como Delacroix, que foi uma importante referência para a concepção de sua série de obras sobre naufrágios. Um desenho de grandes dimensões desta série está presente na exposição, tensionando as relações entre o passado e os acontecimentos recentes.

Além dos desenhos e pinturas, é apresentada pela primeira vez ao público, uma das últimas grandes obras de Tunga, Sem título (2015), trazendo as relações de tactilidade, peso e simbólicas para outra esfera, em uma transmutação alquímica. O desejo, que se revela de forma pulsante nas obras dessa exposição, é, nas palavras de Tunga, uma ‘energia de conjunção’, capaz de associar uma variedade de materiais como ferro, cerâmica, vidro e cristal.

Vistas da exposição
Fotografia: Ding Musa, Filippo Bamberghi e Genevieve Hanson
Obras
Flávio de Carvalho, Sem título, 1970
nanquim sobre papel, 69 x 49 cm
Flávio de Carvalho, Sem título, 1969
Nanquim sobre papel, 69 x 49 cm
Tunga, Sem título, da série La Voie Humide, 2014, tinta sobre papel do Himalaia, 75 x 50 cm - Cortesia do Acervo Tunga
Tunga, Sem título, da série La Voie Humide, 2014, tinta sobre papel do Himalaia, 75 x 50 cm - Cortesia do Acervo Tunga
Cecily Brown, Sem título (naufrágio), 201, pastel, aquarela, tinta e carvão sobre papel, 101.6 x 152.4 cm
Cecily Brown, Crescemos acostumados ao Escuro, 2017, óleo sobre linho, 48.2 x 43 cm
Cecily Brown, Uma Traidora é a Abelha, 2017, óleo sobre linho, 48.2 x 43 cm
Cecily Brown, Discurso Sedoso e Sapato Capcioso, 2017, óleo sobre linho, 48.2 x 43 cm
Cecily Brown, O Abrir e o Fechar, 2017, óleo sobre linho, 104 x 155 cm
Tunga, Sem título, da série La Voie Humide, 2014, tinta sobre papel do Himalaia, 75 x 50 cm – Cortesia do Acervo Tunga
Tunga, Sem título, da série La Voie Humide, 2014, tinta sobre papel do Himalaia, 75 x 50 cm – Cortesia do Acervo Tunga
Tunga, Sem título, 2015, ferro, cerâmica, Sansevieria trifasciata, aço, madeira, vidro, cristal, dimensões variáveis – Cortesia do Acervo Tunga
Tunga, Sem título, 2015, ferro, cerâmica, Sansevieria trifasciata, aço, madeira, vidro, cristal, dimensões variáveis – Cortesia do Acervo Tunga
Tunga, Sem título, 2015, ferro, cerâmica, Sansevieria trifasciata, aço, madeira, vidro, cristal, dimensões variáveis – Cortesia do Acervo Tunga
Texto curatorial
por Paulo Miyada

To love thou blam’st me not, for love thou says Leads up to heaven, is both the way and guide; Bear with me then, if lawful what I ask;

Love not the heavenly, and how they love Express they, by looks only, or do they mix Irradiance, virtual or immediate touch?

Por amar não me culpes, que amor dizes Conduz ao Céu, a via é e o guia. Concede-me isto, se é justo o que peço: Se amarem, como amam os espíritos,

Só através de olhares, ou misturam Fulgor, toque virtual ou imediato?

Adão interpela o anjo Rafael sobre os limites do amor, próximo ao final do livro VIII de Paraíso Perdido, de John Milton1

i. Algum desejo

“Se houvesse outras maneiras de manter a suja natureza sob certo grau de controle (com sexo, mas sem Streptococcus), os Estados Unidos dispensariam de bom grado tanto a arquitetura quanto os edifícios”,2 ponderou o crítico britânico Reyner Banham ao refletir sobre o futuro das casas e das cidades na “segunda era da máquina”, com seus automóveis, seus gadgets, suas re- des informacionais, sua comida enlatada e seus produtos descartáveis. Banham havia visitado a América em busca de novos paradigmas para a relação entre humanidade e ambiente e, ao ex- trapolar o que encontrou no chamado “modo de vida americano”, acabou criando essa ótima metáfora para boa parte da sexualidade pós-pornô, pós-AIDS e pós-internet – com orgasmo, mas sem Streptococcus (e sem troca de suor, fluídos e feromônios, vale dizer).

Não há nada de inerentemente ruim nesse enquadramento virtualizado do desejo – inclusive, muito do que valorizamos na história da arte foi feito (velada ou declaradamente) como veículo para algum prazer escópico, fosse ele voyeurista, dissimulado ou até sublimado no campo da representação. Da mesma história da arte, no entanto, despontam inúmeros exemplos do avesso disso: obras que empregam dispositivos de representação para apreender do desejo aquilo que tem consequências, deixa marcas, sacrifica energias, marca a carne. Pois o desejo praticado como conjunção cria sentidos novos ao reunir duas ou mais polaridades e, simultaneamente, corrói a estabilidade desses polos, ameaça sua integridade. Como diz a canção, quando seu coração está em chamas, você tem que saber que há fumaça nos seus olhos.3

Leia o texto curatorial (atualizar link)

Publicação
Sobre a artista

Cecily Brown (Londres, 1969) Uma das grandes pintoras da atualidade, graduou-se na Slade School of Fine Art em 1993. Mudou-se para Nova York no ano seguinte, aproximando-se das influencias abstratas e expressionistas da cidade, mas por vezes satirizando noções de virilidade dessa tradição, explorando questões eróticas na pintura a partir de uma perspectiva feminina. Realizou exposições individuais em instituições como o Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, (Washington D.C., 2002–03); Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Madrid, 2004); Museum of Modern Art (Oxford, 2005); Museum of Fine Arts (Boston, 2006–07); The Drawing Center (Nova York, 2016); Museum of Contemporary Art Santa Barbara (Santa Barbara, 2018). Vive e trabalha em Nova York.

Sobre o artista

Flávio de Carvalho (Amparo da Barra Mansa, 1899 – Valinhos, 1973) se destacou como artista, arquiteto, cenógrafo, escritor e engenheiro. Em sua juventude estuda em Paris e posteriormente inicia o curso de engenharia civil no Armstrong College da Universidade de Durham, (Newcastle, Inglaterra) frequentando paralelamente o curso noturno de artes da King Edward the Seventh School of Fine Arts. Conclui seus estudos em 1922 e, nesse mesmo ano, volta a residir em São Paulo. Em 1931, realiza a polêmica performance (avant la lettre) Experiência nº 2. Escreveu o texto para a peça O Bailado do Deus Morto, cuja encenação foi proibida pela polícia em 1933. Seus textos o levaram a ser indicado, em 1939, para o Prêmio Nobel de Literatura. Sua primeira exposição individual, realizada em 1934, também foi fechada pela polícia sob alegação de atentado ao pudor, e reaberta alguns dias depois, por ordem judicial. Em 1956, apresenta no centro de São Paulo o New Look – um traje tropical masculino constituído por uma saia de nylon, uma camisa bufante, um chapéu e uma meia arrastão com sandálias de couro – causando novamente um grande escândalo. Participou da 25ª Bienal de Veneza (Veneza, 1950); da Bienal de São Paulo (São Paulo, 1951, 1953, 1955, 1963, 1965, 1967, 1971, 1973); do Panorama de Arte Atual Brasileira (São Paulo, 1969, 1970, 1971), entre outras exposições.

Sobre o artista

Tunga (Palmares, 1952 – Rio de Janeiro, 2016) formou-se em arquitetura pela Universidade do Rio de Janeiro, fundou, na década de 1970, juntamente com os artistas Cildo Meireles, Waltercio Caldas e José Resende, a revista Malasartes e o jornal A Parte do Fogo. Sua obra se desenvolveu em diversas linguagens artísticas, como vídeo, performance, escultura, desenho e instalação, mas também abrange relações com a ciência, a alquimia e ritos ancestrais. Depois de sua primeira individual, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1974, o artista realizou exposições individuais em instituições como o MASP (São Paulo, 2017); MoMA PS1 (Nova York, 2008); Musée do Louvre (Paris, 2005); Galerie Nationale du Jeu de Paume (Paris, 2001); Museo de Arte Contemporáneo (Monterrey, 2001); Phoenix Art Museum (Phoenix, 1998); Museum of Contemporary Art, Miami; Bard College – Center for Curatorial Studies, Nova York, EUA (1997); Museum of Contemporary Art of Chicago (Chicago, 1989); Kanaal Art Foundation (Kortrijk, 1989); Whitechapel Gallery (Londres, 1989). Em 2012, o Instituto Inhotim (Brumadinho, MG) inaugurou um segundo pavilhão dedicado à sua obra. Participou da Bienal de São Paulo (1981, 1987, 1994, 1998 e 2013); Bienal de Lyon (2000); Bienal do Mercosul (1999); Documenta X (1997); Bienal de la Habana (1994); e da Bienal de Veneza (1982). Seu trabalho integra importantes coleções públicas, como o Peggy Guggenheim; The Museum of Fine Arts, Houston; MoMA – Museum of Modern Art; Instituto Inhotim, entre outros.