Pequenas Pinturas – Ato II
20 Agosto - 24 Setembro 2022
Pequenas Pinturas – Ato II
20 Agosto - 24 Setembro 2022

Ato II:

 

Ana Cláudia Almeida

Antonio Obá

Eduardo Berliner

Bertô

Camila Lacerda

Carla Santana

David Almeida

Lucia Laguna

Maxwell Alexandre

Patricia Leite

Paula Siebra

Renan Teles

Tadáskía

Thomaz Rosa

Yuli Yamagata

Curadoria: Pollyana Quintella e Ricardo Kugelmas

Há seis anos, a primeira exposição do auroras reunia um conjunto de pinturas em pequeno formato, com organização de Bruno Dunley. Seguindo o mesmo princípio dessa mostra inaugural, Pollyana Quintella e Ricardo Kugelmas reuniram obras de 27 artistas divididas em dois atos diferentes. A curadora deixa claro que “Não há recursos narrativos ou temáticos que justifiquem a aproximação de todos esses nomes. O que os une, o que nos une, é o amor pelo pequeno, o desejo de jogar com ele e observar quantos infinitos cabem em cada um desses fragmentos.” De modo geral, a exposição apresenta certa diversidade presente na pintura brasileira contemporânea, produzindo um diálogo entre gerações e diferentes perspectivas.

 

No percurso dessa casa, o público poderá encontrar, ao longo desses dois atos, quase uma centena de pequenas pinturas em diferentes cômodos do auroras. É característica desse formato, certa intimidade na experiência com a obra, que exige uma aproximação corpo-a-corpo para deslindar as nuances dos gestos reduzidos.

 

Pelo viés da produção, o pequeno formato “também permite, em alguns casos, um maior desprendimento e entrega à experimentação. Nas visitas aos ateliês, não é raro toparmos com miniaturas que apontam novos capítulos por vir, como pequenas frestas produzidas no léxico dos artistas. Ao contrário dos formatos maiores, o pequeno convida a mão a exercitar o erro, isto é, traçar e vislumbrar novos caminhos dentro da pesquisa; é o pequeno enquanto esboço e projeto, aposta autorizada no não sabido” mas também na elaboração de pequenas e elaboradas joias.

 

Dessa maneira, convidamos o público a costurar seu próprio caminho no encontro com esse grupo bastante heterogêneo de singulares pinturinhas que se avizinham nos diversos cantos dessa casa.

 

Vistas da exposição
Fotografia: Ding Musa
Obras
Antônio Obá
Figura peregrina - imagem incidental: cabeça de Mandela, 2020
óleo sobre tela
35 x 35 cm
David Almeida
Bafo Quente, 2022
óleo sobre tela
20 x 30 cm
Paula Siebra
Onda, 2022
óleo sobre tela
30 x 20 cm
David Almeida
Fuga em Cococi, 2022
óleo sobre tela
20 x 30 cm
Paula Siebra
Bruma da manhã, 2022
óleo sobre tela
30 x 20 cm
David Almeida
Arco medonho, 2022
óleo sobre tela
20 x 30 cm
David Almeida
Pico, 2021
óleo sobre madeira preparada com bolo armênio
20 x 25 cm
Eduardo Berliner
Janela, 2022
óleo sobre lona montada sobre madeira
28 x 25 cm
Lucia Laguna
Entre a linha vermelha e a linha amarela n. 39, 2004
óleo sobre tela
25 x 25 cm
Patrícia Leite
Igreja da pampulha, 2001
óleo sobre madeira
39 x 35 cm
Camila Lacerda
Fachada, 2020
tinta de parede e acrílica sobre tela
20 x 20 cm
Lucia Laguna
Entre a linha vermelha e a linha amarela n. 38, 2004
óleo sobre tela
25 x 25 cm
Eduardo Berliner
Sem título, 2022
óleo sobre tela
35 x 40 cm
Bertô
Uma perna de vaca embaixo de um elevador, 2022
óleo sobre linho
20 x 20 cm
Carla Santana
Série Lontras 3, 2022
argila e pigmento sobre tela
15 x 15 cm
Maxwell Alexandre
Sem título, da série Reprovados, 2018
látex, polidor de sapatos, carvão e acrílica sobre tela
30 x 20 cm
Antônio Obá
Strange Fruits - Goiabeira, 2019
óleo sobre tela
60 x 60 cm
Maxwell Alexandre
Sem título, da série Distanciamento Social, 2021
óleo sobre tela
50 x 50 cm
Eduardo Berliner
Corvo, 2022
óleo sobre madeira
25 x 28 cm
Renan Teles
A moita, 2022
óleo sobre tela
50 x 50 cm
Bertô
Medo de um rato subir pelo encanamento e morder meu cú, 2022
óleo sobre linho
24 x 30 cm
Eduardo Berliner
Lareira, 2022
óleo sobre lona montada sobre madeira
40 x 35 cm
Thomaz Rosa
Snif, 2020
óleo, lápis e resina acrílica sobre tela
30 x 24 cm
Yuli Yamagata
Leprechaun texano, 2022
elastano, veludo, jeans, oxford, pelúcia, fibra siliconada e linha de costura
80 x 60 x 7 cm
Bertô
Sua cabeça rosa e minha cabeça roxa, 2022
óleo sobre linho
30 x 40 cm
Eduardo Berliner
Manchas, 2022
óleo sobre lona
46 x 62 cm
Renan Teles
Sentada, 2022
óleo sobre tela
15 x 15 cm
Bertô
Eu sonhei que meu avô era metade homem, metade privada, 2022
óleo sobre linho
30 x 40 cm
Eduardo Berliner
Folhas, 2022
óleo sobre tela
16,5 x 25 cm
Patrícia Leite
Oxalis, 2022
guache sobre madeira
19 cm Ø
Tadáskía
Toalha de rosto, toalha de corpo, 2020
toalha, base de rosto, pó de maquiagem, tecido, jóias, pedras, bambu, linha e argolas de metal
94 x 45 cm
Thomaz Rosa
Sem Título, 2019
óleo sobre tela
37 x 29 cm
Ana Cláudia Almeida
Sem título, 2022
areia, cola, resina, papel e pastel oleoso sobre tela
24 x 30 cm
Eduardo Berliner
Folhas, 2022
óleo sobre tela
40 x 40 cm
Camila Lacerda
Fachada, 2020
tinta de parede e acrílica sobre tela
30 x 20 cm
Camila Lacerda
Fachada, 2020
tinta de parede e acrílica sobre tela
30 x 30 cm
Camila Lacerda
Fachada, 2020
tinta de parede e acrílica sobre tela
30 x 40 cm
Maxwell Alexandre
Sem título, da série Reprovados, 2018
látex, polidor de sapatos, acrílica, grafite e fita crepe sobre tela
60 x 50 cm
Maxwell Alexandre
Sem título, da série Distanciamento Social, 2021
látex e polidor de sapatos sobre papel pardo
60 x 40 cm
Maxwell Alexandre
Sem título, da série Distanciamento Social, 2021
látex e polidor de sapatos sobre papel pardo
40 x 60 cm
Eduardo Berliner
Canteiro, 2022
óleo sobre linho
39 x 47 cm
Eduardo Berliner
Lusco fusco, 2022
óleo sobre madeira
18 x 23 cm
Eduardo Berliner
Manchas, 2022
óleo sobre lona
60 x 64 cm
Eduardo Berliner
Tanque, 2022
óleo sobre madeira
23 x 30 cm
Eduardo Berliner
Corte, 2022
óleo sobre tela
25 x 16,5 cm
Eduardo Berliner
Pedaços, 2022
óleo sobre gesso montado sobre compensado
20 x 30 cm
Ana Cláudia Almeida
Sem título, 2022
pastel oleoso e resina acrílica sobre tela
24 x 30 cm
Ana Cláudia Almeida
Sem título, 2022
óleo sobre tela
24 x 30 cm
Tadáskía
Toalha de rosto, toalha de corpo, 2020
toalha, base de rosto, pó de maquiagem, tecido, jóias, pedras, bambu, linha e argolas de metal
103 x 45 cm
Carla Santana
Série Lontras 2, 2022
argila e pigmento sobre tela
tríptico | cada 15 x 15 cm
Carla Santana
Série Lontras 2, 2022
argila e pigmento sobre tela
tríptico | cada 15 x 15 cm
Carla Santana
Série Lontras 2, 2022
argila e pigmento sobre tela
tríptico | cada 15 x 15 cm
Thomaz Rosa
Line, 2019
óleo, micropore, colagem e cigarro sobre tela
20 x 24 cm
Thomaz Rosa
flipeed 1, 2016
óleo sobre tela
10 x 15 cm
Thomaz Rosa
g1, 2018
óleo e fita sobre tela
37 x 29 cm
Thomaz Rosa
Auto controle, 2020
óleo sobre tela
40 x 40 cm
Thomaz Rosa
Relationship, 2019
óleo sobre tela
24 x 20 cm
Thomaz Rosa
Um cavalo sem nome, 2020
óleo e micropore sobre tela
35 x 27 cm
Patrícia Leite
Parque I, 2014
óleo sobre tela
40 x 30 cm
Texto Curatorial
Pollyana Quintella

O amor pelo pequeno

  “A sua pequenez é, ao mesmo tempo, um todo e um fragmento.
O amor pelo pequeno é uma emoção infantil”
Marcel Duchamp imaginado por Enrique Vila Matas

  

Pequenas pinturas têm um passado rico e celebrado, avessas à grandiosa afirmação visual em favor de uma leitura mais doméstica e localizada. O menor nos seduz por muitos motivos, dentre eles a possibilidade de imaginar que estamos lidando com algo desvinculado das grandes linhas do senso comum – o pequeno como antagonista do majoritário, avesso daquilo que nutre uma opinião em torno de certa centralidade reconhecida como evidente.

Mas a escala mínima permite, antes de tudo, a fácil circulação dos objetos, e a portabilidade como promessa de autonomia é algo que atravessa a história da produção criativa. Lá no princípio dos homens, os paleolíticos já carregavam de um lado pro outro as venuzinhas de terracota, cultuando curvas e desejos. Caberia muita coisa nessa lista: os muiraquitãs amazônicos, os netsukes japoneses, as illas bolivianas, as guias do candomblé, o escapulário católico, a figa romana, o hamsá islâmico, a foto da pessoa amada na carteira…. O pequeno nos faz companhia, nos deixa menos sós.

Além disso, o miúdo nos exige certo grau de intimidade, nos fazendo aproximar o corpo do objeto, acercar o olho, curvar a coluna e quem sabe farejar um resto de cheiro da matéria dada ao campo de visão. Pequenas obras convidam o público a abandonar a experiência visual às vezes rápida e arrebatadora da tela maior por uma visão mais matizada e medida. A visão aguda substitui a “periférica”, na promessa de que ocorra um envolvimento mais ativo. Noutras palavras, é muitas vezes com pequenas pinturas que experimentamos um “corpo a corpo”, acompanhados da estranha e sedutora sensação de que estamos diante de singelos segredos sussurrados.

O pequeno formato também permite, em alguns casos, um maior desprendimento e entrega à experimentação. Nas visitas aos ateliês, não é raro toparmos com miniaturas que apontam novos capítulos por vir, como pequenas frestas produzidas no léxico dos artistas. Ao contrário dos formatos maiores, o pequeno convida a mão a exercitar o erro, isto é, traçar e vislumbrar novos caminhos dentro da pesquisa; é o pequeno enquanto esboço e projeto, aposta autorizada no não sabido. Noutra via, tal liberdade também nos aproxima da ludicidade infantil, nos conectando ao imaginário dos brinquedinhos, casas de boneca e pecinhas dos jogos de tabuleiro, e que menciona, por sua vez, tudo aquilo que não deseja ser necessariamente oficial, passando despercebido entre maletas, bolsos, carteiras, caixinhas, garrafas ao mar, corvos mensageiros e pombos-correio.

Mas há pouca ou nenhuma regra por aqui – lembremos que algo fundamental para as práticas artísticas contemporâneas é justamente a sua impropriedade e, portanto, nos cabe a sensibilidade de disputar o impróprio no trânsito entre o coletivo e o particular, sem maiores generalizações. Se há aqueles que encontram no pequeno o convite à errância, há também, na via inversa, os que assumem tal formato como território para exercer a minúcia com ainda mais plenitude, controlando o percurso de cada fio do pincel sobre a superfície. Daí, não falamos da mão solta do rascunho propositivo, mas da mão que lapida a joia: a mão cirúrgica.
Outra confusão que deve ser desfeita é a de que a forma breve seja, consequentemente, uma forma sintética. No campo visual, há pequenas obras que carregam consigo “imensas cosmologias, sagas e epopéias encerradas nas dimensões de um epigrama”, tomando aqui emprestado algumas palavras de Italo Calvino. O mínimo também sabe ser barulhento e ambicioso, quando assim lhe convém. José Paulo Paes dizia que Manuel Bandeira era um poeta “menor menormenormenormenor”. São, ao seu modo, expansivas e cósmicas essas pinturinhas que aqui vemos.

Por fim, é inevitável reconhecer que o conjunto que apresentamos nesta mostra habita, antes de tudo, uma casa, reforçando assim o convite ao doméstico. Quando o Auroras se fundou como um espaço de arte, há seis anos atrás, foi com uma exposição coletiva de Pequenas Pinturas que tudo começou. Seguimos aqui exatamente o mesmo princípio. Não há recursos narrativos ou temáticos que justifiquem a aproximação de todos esses nomes. O que os une, o que nos une, é o amor pelo pequeno, o desejo de jogar com ele e observar quantos infinitos cabem em cada um desses fragmentos. Dividimos o conjunto em dois atos e esperamos que o público possa costurar seu próprio percurso, topando, de um cômodo ao outro, com essas estranhas criaturinhas. Reforço que o pequeno, na sua intimidade, é o que torna a companhia possível – ele muitas vezes nos requisita vizinhanças e agrupamentos, a prática de estar-junto. Aqui, em grande quantidade, as pequenas pinturas são um povoado de espécies ainda desconhecidas por nós, a um só tempo estranhando e aninhando a casa.

 

Pollyana Quintella